Bilinguismo e Neurociência

***Ana Regina Fonseca Araújo - Gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Number One

Mais do que um diferencial profissional, ser bilíngue ou falante fluente de um segundo idioma pode favorecer o discernimento ou reconhecimento de detalhes ou características na estrutura linguística dos diferentes idiomas e ativar a área cerebral onde acontecem as funções executivas (áreas responsáveis por nossos processos de escolha e decisão), uma vez que o bilíngue tem que aprender a optar todo o tempo por qual código usar. Estudos da neurociência indicam que a melhor idade para aquisição de linguagem é a infância (3 a 10 anos). Quanto mais cedo se iniciarem os estudos da segunda língua, maior será a facilidade do indivíduo de se comunicar em dois idiomas.

Crianças aprendem idiomas com mais facilidade que adultos, ou seja, quanto mais velho o indivíduo mais difícil fica aprender uma língua. A neurocientista Sharon Begley fez alguns testes com crianças com menos de um ano e concluiu que as que entendiam outra língua tiveram um resultado superior àquelas que compreendiam apenas uma. Neste estudo, a doutora chega à conclusão de que indivíduos que aprendem uma segunda língua mais cedo têm vantagens sobre os monolíngues, não só no que se refere à linguagem.

Sabemos que ao adquirirmos qualquer tipo de conhecimento processos neurológicos ocorrem de forma a ampliar nossa capacidade de aprendizado e de raciocínio. A aquisição de conhecimento nestes casos está diretamente relacionada ao acesso aos estímulos externos e aos sentidos. Assim, um indivíduo que é desde cedo exposto a um segundo idioma terá biologicamente mais preparo ao aprendizado de línguas do que aqueles que são expostos a uma só língua. Estes indivíduos estarão dobrando a atividade da área do cérebro onde se desenvolve a linguagem. Todos nós - os clinicamente normais - nascemos com o cérebro pronto para o aprendizado da língua e, desta forma, "o cérebro sabe" ou entende que são códigos de comunicação. É natural ou intuitivo. Desta forma, a criança desde muito cedo entende que são códigos diferentes para um mesmo objeto.

Ao contrário do que se pensa, o aprendizado de uma segunda língua influencia positivamente no aprendizado do idioma nativo. Os estudos da neurociência apontam que o indivíduo bilíngue ou falante de uma segunda língua não terá um escopo enorme de vocabulário nas duas línguas, mas terá todos os benefícios cerebrais, além de na melhor idade poder retardar em 10 anos o aparecimento de doenças próprias da velhice, como falta de memória e Alzheimer.

O tempo para que uma pessoa possa ser considerada como bilíngue é muito relativo. Devemos levar em consideração se o indivíduo foi exposto à língua desde cedo, qual a frequência desta exposição, em que ambiente, qual o teor das suas necessidades, e se tem aptidão para o aprendizado de línguas. Uma pessoa pode viver 10 anos nos EUA e ainda assim não ter pronúncia e fluência boas. Outra, em dois meses na mesma situação, poderá se tornar bilíngue.

Fazer intercâmbio pode encurtar as barreiras do aprendizado. Quando moramos no país cuja língua nativa é aquela que queremos aprender, e nos deparamos com necessidades básicas para nossa sobrevivência (comer, dormir e interagir, por exemplo), temos este gatilho motivador que nos proporciona um aprendizado mais rápido. Serão 24 horas de contato com o idioma e a necessidade de resolvermos assuntos e nos fazermos entender. É bom ressaltar que, um intercâmbio morando com falantes da mesma língua que falamos prejudica muito a aquisição do novo idioma, pois a tendência é recorrermos à nossa zona de conforto quando precisarmos.